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1. de vina cerra para o mundo

Era a última semana de agosto de 2021 quando Victor Santista finalmente colocou os pés pela primeira vez em Valência, a capital do condado de mesmo nome na ilha de Costa Malva. Fazia um dia quente, típico do verão do hemisfério Norte, e as pessoas da cidade aproveitavam os últimos dias de férias para dar um mergulho no mar e lotar os pontos turísticos à medida que a temperatura subia.

― Boa tarde, passageiros. Chegamos ao destino final ― disse a voz do operador do trem através das caixas de som do vagão. ― Sejam bem-vindos a Valência. O horário local é quatro e meia da tarde e a temperatura é de 33 graus. Se estão pensando em aproveitar para ir à praia hoje mesmo, é uma boa pedida!

Victor se levantou junto com as outras seis pessoas do vagão, e pegou suas malas enquanto Sicko Mode do Travis Scott explodia nos fones caídos sobre os ombros. Ele os colocou de volta no ouvido e carregou a si mesmo e as malas para fora do trem, sem acreditar ainda que estava realmente fazendo isso. Era a primeira vez que o rapaz visitava Valência, mas agora a cidade ao sul de Costa Malva seria o lugar que ele chamaria de casa pelos próximos quatro anos.

Ou talvez até mais do que isso.

Todo mundo tinha certeza de que ele acabaria estudando na Universidade de Navarro, onde morou pelos últimos três anos, durante todo o Ensino Médio. Seus amigos do colégio riram com deboche quando Victor recebeu a proposta para jogar no time da Universidade de Valência, porque nunca que um dos melhores jogadores de rúgbi da Liga Estudantil que o norte de Costa Malva já tivera viraria a casaca dessa maneira... Certo?

Bom, errado. Ao menos quando se tratava de Victor Santista, o quebrador de expectativas. Verdade seja dita, ele sempre se atraía pelas coisas mais difíceis e vivia sempre à beira de um abismo, flertando com a possibilidade de pular e descobrir o que aconteceria. Seus olhos chegavam a brilhar frente às decisões menos convencionais ― que muitas vezes eram também as decisões erradas, mas ele não achava que era esse o caso sobre ter pegado o trem rumo ao sul e ido parar em Valência.

Victor Santista estava empolgado.

― Vic! ― a voz de Caê o chamou e o rapaz virou a cabeça na direção dela. Caê estava acenando e, quando deslizou a máscara preta pelo queixo, seu sorriso largo de dentes branquinhos ficou à mostra. Os músculos do rosto de Victor se transformaram em um sorriso igualmente radiante por detrás da sua máscara e ele apressou o passo na direção dela, com a mochila pesada nas costas e as duas malas que segurava pelas alças, uma em cada mão.

Ele as deixou no chão quando chegou perto de Caê e ela pulou no pescoço dele, como costumavam fazer quando eram crianças. Agora ele era uns bons vinte centímetros mais alto do que ela, muito diferente daquela época antes de Victor espichar para valer. Caê deu um soquinho no ombro do rapaz, mordendo o lábio inferior.

― Você tá mesmo aqui, cara! ― ela exclamou. ― Sabe que até esse momento, te vendo de novo em carne e osso, eu tinha minhas dúvidas se você ia vir mesmo ― brincou.

Victor soltou uma risada rouca.

― E eu iria pra onde?

Caê deu de ombros.

― Sei lá, do jeito que você é, não ia me surpreender se fugisse de volta pra Navarro e morasse com seu namorado.

Victor fez uma careta e balançou a cabeça, afastando aquela ideia.

― Eu nem tenho mais namorado, cabrón ― ele se defendeu, mas não queria continuar falando sobre isso. Caê já sabia tudo o que tinha para saber e Victor queria mesmo era focar no que estava por vir, não no que ficou no passado.

Caê o observou com um sorriso sacana no rosto. Ele estava usando um moletom azul marinho escrito “Brooklyn 1969” que ela conhecia bem porque era praticamente um uniforme que o rapaz não tirava do corpo. Se bem conhecia Victor, sabia que ele devia estar suando feito um porco, nos cinco minutos em que estavam dentro da estação, mas outras coisas a respeito dele estavam diferentes. O cabelo castanho bem escuro tinha crescido um pouco, quase tocando os olhos côncavos que herdou da parte chinesa da família. Ele também tinha uns machucados na mandíbula de quando tentou fazer a barba, o que fez Caê franzir o nariz com vontade de rir porque Victor quase não tinha pêlo facial.

― Se você diz ― ela respondeu por fim. ― Vamos rumo ao seu futuro então, que nesse caso é o Uber que a gente tem que pegar pra chegar no seu alojamento.

― O que aconteceu com o transporte público? ― Vic perguntou e o olhar de Caê desceu até as malas na mão dele. Nenhum dos dois tinha muito dinheiro para gastar no momento e pegar um Uber parecia um luxo desnecessário para o rapaz.

Caê o encarou de novo, com um olhar desafiador e cético para a inocência do menino.

― Você quer encarar o metrô de Valência logo de primeira? E ainda por cima na hora do rush?

Victor piscou, sem saber o que responder.

― Bom, sim? Se isso significa economizar. Desde quando você virou criterioso? ― quis saber.

― Uh, eu tinha esquecido que você é ousado ― Caê respondeu, debochado. Soltou uma risada de escárnio e deu um tapinha no ombro de Victor. ― Tá bom, então. Vamos fazer isso acontecer.

Caê pegou uma das malas do amigo para ajudá-lo e os dois seguiram juntos até a entrada do metrô da linha vermelha, a mais lotada de toda a cidade, principalmente em uma quinta-feira às cinco da tarde. Caê perguntou como tinha sido a viagem e Victor deu de ombros. Havia levado um pouco mais de três horas de trem para chegar, mas a mudança não tinha sido tão grande quanto três anos atrás quando ele saiu da pequena cidade de Vina Cerra, na Constança do Sul, para ir sozinho para Navarro aos quinze anos. Ele e Caê costumavam dizer que todas as cidades da Constança do Sul eram pequenas, parte de um quebra-cabeças de campos de plantações, lagos de diferentes cores e elevações rochosas que as faziam parecer todas iguais. Havia sido chocante para o garoto colocar os pés em uma cidade de verdade, a grande capital do norte gelado e montanhoso de Costa Malva, que vivia duelando com Valência pelo posto de maior rival da atual capital do país, Porto Dourado.

Victor, de certa forma, estava se tornando um grande traidor ao desertar das trincheiras do norte e se mudar para terras inimigas, e jamais seria perdoado ― como seus amigos deixaram bem claro antes de ele partir.

Costa Malva podia até ser um país pequeno em território, mas se tornava gigante quando se tratava da rinha entre o norte e o sul.

Mas Victor e Caê eram do centro, onde a vida era provinciana e muito diferente dos grandes centros urbanos, o que significava que eles estavam pouco ligando para qual era a maior cidade do país. Victor até chegou a sentir certo dever de aceitar a proposta da Universidade de Navarro em vez de se mudar para Valência, mas suas dúvidas não duraram muito. Foi o próprio Caê quem deu um chega para lá no amigo, quando disse:

― Você precisa ir para onde sente que vai ser mais feliz, compa. Você não deve nada a alguém.

Além disso, é claro que, se ele fosse para Valência, os dois amigos de infância estariam juntos de novo e esse era um bônus bom demais para não ser levado em consideração.

O que levou Victor até ali, no metrô lotado como Caê tinha previsto, mas que era uma opção melhor do que fazer cinquenta baldeações de ônibus para ir da estação de trem até o alojamento da UniVale. Eles chegaram lá quase uma hora depois, e Victor a essa altura já tinha desistido de manter o moletom e o amarrou na cintura.

Como a quinta e a sexta-feira eram os dias de receber os novos alunos, o alojamento estava cheio de gente. Eles descobriram quando chegaram lá que precisavam, na verdade, ir até a administração na Reitoria para pegar a chave do quarto e só então voltar.

― Mas será que vai ter gente ainda lá? Já são mais de cinco da tarde ― Victor se preocupou. Caê deu de ombros.

― Bom, é isso o que a gente vai ter que descobrir.

Para sorte de Victor, a administração ainda estava aberta por causa do grande fluxo de alunos chegando naquele dia. Ele não teve problema em conseguir a chave do seu quarto, que ficava na ala reservada do prédio só para os jogadores de rúgbi. O alojamento da UniVal, assim como de todas as universidades públicas de Costa Malva, não era nada glamoroso. Ainda assim, não era tão fácil conseguir uma vaga, mas jogadores de rúgbi sempre tinham regalias.

Victor conseguiu entrar na instituição sem depender do vestibular, depois conseguiu um lugar no alojamento e a bolsa para se manter na cidade (que podia não ser muito, mas era alguma coisa). Tudo isso poderia parecer injusto, mas era, na verdade, a realidade do sistema em que viviam. As universidades recebiam investimentos de fora do governo por causa dos times e parte desse dinheiro era direcionado aos responsáveis por fazer tal dinheiro girar: os jogadores.

Ser um jogador de rúgbi em Costa Malva, especialmente se você fosse bom de verdade, era a versão malvina do Sonho Americano. E Victor, apesar de não ser a epítome da ambição, estava com seus olhos bem abertos para agarrar as oportunidades que apareciam. Ele aprendeu desde cedo que dinheiro não se dava em árvore, que era preciso ralar muito no mundo real para conseguir ser alguém, então seria o último a recusar boas ofertas.

Ele tinha saído de casa aos quinze anos para morar em Navarro e jogar no time de um colégio importante, bancado com muito sacrifício pela mãe solo. Depois saiu de Navarro para vestir a camisa da UniVale e o novo capítulo da sua vida estava apenas começando.

Era um negócio. Tudo era um negócio. E Victor Santista era a raposa.

 

***

 

Victor jogou suas malas no centro do quarto e soltou um suspiro. Caê se jogou na cama do rapaz, que dividiria o quarto com outro calouro do time que ainda não tinha chegado.

― Enfim os humilhados foram exaltados ― disse Caê, suando depois de terem andado para cima e para baixo no campus debaixo do sol ainda quente daquele fim de tarde. No verão, o sol só se punha lá pelas oito e meia da noite e olhe lá!

Victor fechou a porta do quarto e encarou a amiga.

― Eu tô bege de fome. Acha que a gente pode ir comer alguma coisa perto daqui?

Caê apoiou o corpo nos cotovelos.

― A gente pode ir no Shenanigans, o bar em que a Toni trabalha ― sugeriu. ― Ela tá doida pra te conhecer, aliás.

― Toni é sua ex-namorada?

― Não ― Caê corrigiu veementemente, o que fez Victor levantar as duas mãos em desculpas. ― Se ela te ouvisse perguntando isso ia ficar puta. ― Afinal, era um consenso geral de que todos odiavam a ex-namorada de Caê. ― Tô ofendida que você sequer se lembra o nome das pessoas na minha vida, ainda bem que você veio morar aqui porque senão ia acontecer o quê? Eventualmente iríamos virar estranhos um para o outro e só mandar uma mensagemzinha barata no aniversário por alguns anos até parar de fazer isso completamente, a ponto de o Instagram parar de mostrar nossos posts um pro outro no feed porque não reconhece como relevante.

Victor piscou, encarando Caê.

― Uau ― ele disse e deixou escapar uma risada seca arranhando a garganta. ― Você pensou em tudo isso agora ou só tem muito tempo sobrando pra ficar criando essas teorias?

Caê abriu um sorriso branquinho na pele marrom. Ela (ou ele, já que usava os dois pronomes) era neta de indianos e argelinos e, assim como Victor, tinha traços mestiços que a faziam parecer um pouco de tudo. “Sou o que você quiser” era o que sempre dizia quando perguntavam sua ascendência, indiscutivelmente parte da geração de costa-malvinos árabes e hindus que estava reinventando cultura, costumes e estética.

Caê sempre gostou da palavra “reinventar” e desde cedo se questionava sobre as coisas que lhe eram ditas ― a começar pelo próprio gênero. Ele era uma pessoa não-binária, bissexual e extremamente carismático. Victor sempre viu Caê, que era dois anos mais velha do que ele, como uma verdadeira esponja que atraía outras pessoas para o seu convívio e se dava bem com todo mundo sem fazer esforço. Ela era, aliás, a pessoas mais good vibes que Victor conhecia, o que a tornava terrível para dar conselhos. Os dois eram terríveis juntos, já que Victor estava sempre em dúvida sobre tudo.

― Eu não tenho tempo livre coisa nenhuma ― Caê sentou e jogou o cabelo para o lado. Agora os fios castanhos e finos batiam um pouco acima da altura do queixo. ― Eu sou uma pessoa muito ocupada.

― Ocupada com o que? ― Victor nem tentou esconder o ceticismo.

― Meu comprometimento em te fazer se apaixonar por essa cidade ― respondeu rápido como um gatilho e piscou para o amigo.

Victor revirou os olhos, mas antes que pudesse retrucar, a porta do quarto foi escancarada. Os dois olharam naquela direção, onde as vozes no corredor que eles ouviam abafadas ficaram mais altas, e três rapazes gigantes entraram no quarto.

― Atenção! ― disse um deles com um megafone que fez Victor se encolher e Caê tapar os ouvidos. ― Membros do time de rúgbi estão sendo convocados no pátio central do alojamento em dez minutos!

― Pô, cara, você quer deixar a gente surdo? ― Caê reclamou.

Os três rapazes estavam usando uma camisa azul celeste com o símbolo do time estampado no meio. O apelido deles era os “Búfalos” por algum motivo que Caê não fazia ideia já que não havia nenhum tipo de búfalo em Valência. Mas era o que eles eram, e tinham muito orgulho disso, aparentemente.

O líder do trio, que ainda segurava o megafone, encarou Caê brevemente, mas sua atenção voltou toda para Victor.

― Você é calouro do time? ― ele perguntou, sem usar o aparelho. Vic assentiu, um pouco tenso pela invasão dos colegas. Ele sabia que havia todo tipo de trote e confraternização nas primeiras semanas do ingresso na faculdade e a UniVale era conhecida por ter, digamos, um senso de humor bastante apurado. Eles gostavam de pregar peças nos seus novos pupilos e tinham certa reputação que podia ser igualmente empolgante e intimidadora.

Vic não fazia ideia do que esperar.

― Então vai pro pátio em dez minutos ― o cara do megafone repetiu. ― É mandatório, você não pode faltar ou então sofrerá as consequências.

Caê precisou se controlar para não soltar uma risada e tapou a boca com a mão em punho. Victor arqueou as sobrancelhas.

― Tudo bem. Estarei lá.

O cara do megafone lançou um olhar de advertência e apontou um dedo para ele.

― Acho bom mesmo ― disse.

E então saíram fazendo tanto barulho quanto entraram, parecendo, de fato, uma manada dos búfalos que julgavam ser. Eles fecharam a porta com um estrondo e Victor encarou Caê completamente perdido.

― O que foi que acabou de acontecer? ― ele perguntou.

No que Caê simplesmente deu de ombros, enfim soltando a risada que estava prendendo.

― Seja bem-vindo à Universidade de Valência, Vic. Aqui é um inferno! Você vai amar.

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Comments (1)

Bruna Fontes
19 de out.

teste

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